E se o cristianismo estiver de novo a ficar na moda? (JMT)

 Público. Sábado, 4 de Abril de 2026.

    Em 2008, no pico de popularidade do movimento Novo Testamento, já depois da publicação do livro de Richard Dawkins A Desilusão de Deus (2006) e de Deus Não é Grande, de Christopher Hitchens (2007), um grupo de ateus ingleses juntou-se para patrocinar uma famosa campanha nos autocarros de Londres. Nela se lia: "Provavelmente Deus não existe. Pára de te preocupar e aprecia a vida." Dawkins doou 5500 libras para essa campanha, e Paul Woolley, diretor de um think tank cristão muito próximo do Arcebispo de Cantuária, doou 50 libras, por entender que a iniciativa era "uma óptima forma de pôr pessoas a pensar em Deus". Os cristãos ingleses não tinham perdido o sentido de humor, mas o cristianismo ocidental parecia ter definitivamente perdido a batalha da secularização - crer já não era cool; a fé era um resquício obscurantista apenas cultivado por aqueles que não percebiam nada de "apreciar a vida".

    Passaram 18 anos, e há uma óptima piada religiosa e filosófica com esses dezoito anos de intervalo, em forma de epígrafe. Diz assim: "Deus morreu (Nietzsche, 1882). Nietzsche morreu (Deus, 1900)." Se os novos ateístas fossem mais sensatos, saberiam que o impulso religioso é impossível de extirpar, e que se não for enquadrado por uma religião organizada acaba por se manifestar em subprodutos políticos (como o comunismo ou o fascismo) ou apocalípticos (como o catastrofismo climático). Entretanto, Christopher Hitchens morreu, o Novo Ateísmo passou de moda, e aquilo a que se está a assistir em muitos países ocidentais é ao lento emergir de um interesse renovado na religião. Não por parte de gerações mais velhas, mas sim dos jovens da geração Z (nascidos entre meados dos anos 90 e o início de 2010); a geração nativa digital que já cresceu com smartphones e redes sociais. Ou seja, muito ruído, muito estímulo, muita abundância sensorial - e muita escassez de sentido existencial.

    Em França, a Conferência de Bispos informou que nesta Páscoa serão baptizados 21 mil adultos. Em 2025, já tinham sido batidos todos os recordes, com mais de 17 mil. Nos últimos anos, a média anual foi de cinco mil. Nos Estados Unidos, a média de conversões de católicos e de cristãos ortodoxos não pára de aumentar. O Washington Post fez uma reportagem sobre o tema que começa assim: "Jovens adultos nos seus 20s e 30s estão a ser atraídos pela Igreja Católica, à medida que procuram a verdade, beleza e, sim, namoradas." O vice-presidente J.D. Vance - que foi de cristão evangélico para ateu, e de ateu para católico - vai lançar um novo livro biográfico, após o enorme sucesso de Hillbilly Elegy [lamento de um homem rústico, em tradução livre], agora sobre o seu processo de conversão. Chama-se Communion: Finding my Way Back to Faith [Comunhão: o Meu Caminho de Regresso à Fé] e será publicado a 16 de Junho. Há quem diga que é o pontapé de saída para a sua corrida presidencial.

    Em Portugal, embora a último Censos mostre o número de portugueses que se afirmam católicos é o mais baixo de sempre, o número de baptizados está a crescer. Como é que isto se explica? O catolicismo de tradição está a ser substituídos, aos poucos, por um catolicismo de convicção. Mais tardio, menos numeroso, mas muito mais substancial. Feito de gente que procura um sentido para as suas vidas através da beleza da palavra, da profundidade e rito e do sentimento de pertença a uma comunidade. "O século XXI será espiritual ou não será", terá dito André Malraux (escritor francês de assuntos políticos e culturais, autor do livro "A condição Humana"). Parece que vai ser. Uma Santa Páscoa para todos.

Texto de João Miguel Tavares na habitual crónica "O respeitinho não é bonito"



 

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